19.7.05

O Poço


Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.

Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?

Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.

Não me temas,
não caias de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.

Radiosa sorri-me
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.

Dá-me amor,sorri-me
e ajuda-me a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.


Pablo Neruda

12 Comments:

Blogger Mocho Falante said...

Vespinha amiga, quantas vezes é preciso dizer que tens de avisar quando aqui pões Pablo Neruda para que eu não corra o risco das lágrimas me molharem a penugem????

Bábas deliciados

19 julho, 2005 00:25  
Blogger CP said...

Lindo!

19 julho, 2005 10:33  
Blogger Isabel Filipe said...

Oi Vespinha...
Bom dia...

É sempre delicioso reler Neruda...

1 Bj

19 julho, 2005 12:14  
Blogger Sérgio Martins said...

«Dá-me amor,sorri-me
e ajuda-me a ser bom.»
Um sorriso como arma. «Ajuda-me», algo que hoje em dia é difícil alguém dizer. Muito bom mesmo.

19 julho, 2005 13:56  
Blogger armando s. sousa said...

Cheguei aqui através do meu amigo Sérgio do EN 101. Pablo Neruda é excepcional. Neruda está para o Chile como Pessoa está para Portugal.
Um abraço.
PS: Poderei saber quem cantava a música que ontem tocava no seu blog?

19 julho, 2005 17:56  
Blogger Isabel Magalhães said...

quando for "crescida" vou ter um portátil com som para poder ouvir a música que aqui acontece. :)

Beijinhos de muitas cores.

19 julho, 2005 19:30  
Blogger Ultimate_pt said...

Olá.
Um poema muito bonito,muito bonita a cumplicidade que ele declara no fim com o seu amor.Mas fiquei no fim sem perceber qual a mágoa que os separa!!!Sem dúvida um poema de desencontros,onde o poeta declara a sua desventura e a impossibilidade de dar uma vida de sonho a "ela".
Penso também que ele quer entender-se com "ela",rendendo-se no fim.
O que achas?
Beijos de outro mundo.

19 julho, 2005 19:59  
Blogger VdeAlmeida said...

O meu poeta do Amor. Fico-te grato, Vespinha :-)
Beijinho

19 julho, 2005 20:07  
Blogger Unknown said...

What can I say?!

Excelentes escolhas: o Neruda e a música :)

19 julho, 2005 21:40  
Blogger Vespinha said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

19 julho, 2005 22:14  
Blogger Vespinha said...

Olá Ultimate_pt.

Já li e reli o poema e chego à conclusão de que a grande mágoa dele é precisamente não saber o que os separa...

Sim.Também acho que ele queria muito entender-se com ela...

Admiro a tua sensibilidade.

Bj da Vespinha (também) sensível

19 julho, 2005 22:19  
Blogger Caracolinha said...

Minha Querida Vespinha, amiga maior e mais linda ... passa-se o seguinte ... já cá vim por várias vezes e tentei comentar este poema ... o pior é que todas as palavras que eu encontro não são suficientes para o qualificar ... uma coisa te garanto ... foste responsável por uma das leituras mais inesquecíveis que já fiz na vida.

Que a tua sensibilidade nos continue a trazer obras primas como esta.

Beijo Poético ~:o)

20 julho, 2005 01:17  

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